Eduardo Duarte @ 08:21

Qua, 28/04/10

 

Este poster foi apresentado nas comemorações do 36º aniversário da 1ª Companhia da Associação de Guias de Portugal e do Agrupamento 383, sediados na Vila de Monchique. Clique aqui para melhor análise do documento. 




Eduardo Duarte @ 09:02

Qua, 14/04/10

 
O investimento tem a sua localização prevista para o sítio de Derrenguias, paredes meias com o Autódromo Internacional do Algarve. Trata-se de um conceito inovador de gestão e valorização integrada do território, centrado nas Fontes de Energia Renováveis, na Investigação & Desenvolvimento e em actividades produtivas com alto valor em Conhecimento e Tecnologia. O projecto do Algarve Energy Park adivinha vantagens competitivas no actual contexto de crise, ambiental e económica, ensombrada pelo quadro de Alterações Climáticas, em que os Estados se revelam incapazes de alcançar compromissos efectivos de redução de gases responsáveis pelo efeito estufa, e por uma conjuntura de políticas de austeridade, perversamente destruidoras de emprego, suportadas por um modelo neoliberal esgotado, caracterizado pela especulação financeira dos mercados, nomeadamente dos combustíveis fósseis.
 
O projecto Algarve Energy Park atribui a Monchique a responsabilidade de se tornar um território âncora, na linha da frente do processo de mudança urgente dos paradigmas de Desenvolvimento, no sentido da transição para um modelo económico mais sustentável do ponto de vista ecológico, menos dependente dos combustíveis fósseis, atribuindo novas funções aos espaços rurais da Serra Algarvia, distintas das bolhas de especulação imobiliária tão frequentes na região.




Eduardo Duarte @ 21:17

Qua, 06/01/10

Nos últimos dias a situação meteorológica em Portugal continental foi marcada por depressões muito cavadas (diminuição acentuada da pressão no centro do mecanismo depressionário), localizadas no Atlântico, acompanhadas de sucessivos rosários de superfícies frontais, carregadas de massas de ar bastante húmido, dotadas de grandes quantidades de vapor de água. As referidas condições meteorológicas desencadearam episódios de precipitações muito concentradas e ventos fortes, com rajadas médias de várias dezenas de km/h, chegando a registar-se intensidades na ordem dos 140 km/h, como sucedeu na região do Oeste, no dia 23 de Dezembro.

 Situação sinóptica no Atlântico em 03/01/2010. Fonte: Instituto de Meteorologia.

 

Não só no Oeste, mas, também, um pouco por todo o país, os efeitos destes núcleos depressionários e sucessão de sistemas frontais responsáveis pelo mau tempo que se tem feito sentir, redundaram, inevitavelmente, em inundações de áreas urbanas, desmoronamento de edifícios, assoreamento e destruição de obras hidráulicas, alagamento e devastação de áreas agrícolas, erosão acentuada e movimentos de massa em vertentes, colapso total ou parcial de infra-estruturas de transporte de energia, vias de comunicação e outros bens materiais.

 

Antes de avançar com os impactos do temporal em Monchique, importa conhecer os factores fisiográficos que levaram à ocorrência de alguns episódios de destruição total e/ ou parcial de bens materiais. Nesse sentido, para se ter uma noção dos quantitativos de precipitação que caíram na região de Monchique até à data desta posta, basta referir que entre Outubro de 2009 (mês em que começa o ano hidrológico) e Janeiro de 2010, a estação meteorológica do INAG instalada na Barragem da Bravura registou 82.3 mm de precipitação acumulada, sendo o mês de Dezembro responsável por 73% deste valor. Estes números são elucidativos quanto à concentração da precipitação ocorrida nas últimas semanas, representando um acréscimo de cerca de 50 % comparativamente à precipitação média acumulada em semelhante período na série temporal de 1940/41 a 1997/98 ( dados ainda provisórios, ver pormenorizadamente aqui). 

 

No extremo SE do concelho, na Barragem de Odelouca, cujas obras se encontram em fase de conclusão, a quantidade de água armazenada nos últimos dias, aproxima-se do nível pleno de armazenamento. Neste momento aágua encontra-se na cota 75m, o que superou o estipulado no plano de enchimento da albufeira e obriga os descarregadores de fundo à libertação de uns largos milhares de metros cúbicos de água por dia. (Foto em baixo).

 

  

 

As consequências dos sucessivos dias de mau tempo na Serra de Monchique registadas até ao momento, quedam-se, fundamentalmente, por situações de colmatação de aquedutos e valetas, colapso total ou parcial de pontões e outras passagens hidráulicas (foto em baixo), verificando-se também inúmeros movimentos em vertentes, principalmente junto da rede viária.  Este último tipo de eventos é bastante frequente na Serra de Monchique, em função da vigorosa rugosidade do relevo, e do facto da construção e desenvolvimento das vias de comunicação se processar quase sempre recorrendo à reconfiguração artificial da morfologia do terreno, através de taludes de aterro e escavação, formando novas vertentes de elevado pendor, ou potenciando o declive das vertentes existentes.

 

 

Destruição parcial de pontão no sítio de Cansino, freguesia de Alferce. 

 

As obras de alteração do relevo para implantação da rede viária, são ainda comummente responsáveis, pela alteração dos padrões de drenagem superficial e subterrânea das vertentes, o que em situações de fortes chuvadas e elevado declive, reduz substancialmente os limiares de plasticidade e liquidez dos solos levando à ocorrência de Movimentos de Massa que colocam em causa as condições de segurança e, não raras vezes, a interrupção da circulação, de troços da abrangente rede viária municipal. A título de exemplo cite-se a escoada ou fluxo lamacento ocorrido na madrugada de 4 de Janeiro, no sítio da Foz do Vale, junto à EN 267, na freguesia de Alferce e que se ilustra na foto em baixo.

 

Contudo, na Serra de Monchique, os Movimentos de Massa não se encontram cingidos às vertentes imediatamente contíguas à rede viária. Um estudo preliminar efectuado no âmbito da dissertação de mestrado que me encontro a desenvolver (A ferramenta SIG na modelação da Susceptibilidade, Perigosidade e Risco Geomorfológico em vertentes da serra de Monchique), com recurso a ortofotocartografia e um modelo digital de terreno a 3 dimensões, permitiu o reconhecimento de 331 Movimentos de Vertente, de tipologia, volume, dimensão e data variados, o que perfaz uma densidade total de cerca de 0,8 Km2 no concelho. A sua grande maioria encontra-se fora das imediações da rede viária, porém nem todos foram devidamente validados no terreno (mapa abaixo).

 

 

 

Para grande parte dos investigadores neste tema, a fase de levantamento das ocorrências é um dos principais factores de introdução de incerteza e subjectividade nos modelos, uma vez que o correcto registo de Movimentos ocorridos depende de dois factores: i) experiência do analista; ii) densidade de coberto vegetal na área de estudo, o que torna mais difícil o levantamento de movimentos mais antigos em áreas de elevada densidade de vegetação.

 

Ainda que não seja atreito a pedinchices, gostava de terminar esta posta solicitando a todos os leitores interessados o favor de me informarem sobre a ocorrência de "rombadas" ou "quebradas", nomes pelos quais os Movimentos de Massa em Vertentes são designados em Monchique, de modo a poder tornar a minha base de dados e modelos consequentes, bastante mais robustos e exactos. Para isso basta utilizar a caixa de comentários desta posta ou, alternativamente, o e-mail:

 

elduderino@sapo.pt

 

Os resultados finais da investigação serão oportunamente partilhados convosco, aqui nos escalavardos.

 

Obrigado.




Eduardo Duarte @ 22:36

Seg, 04/01/10

... que tipo de Monchiqueiro és?

 

Parabéns a quem concebeu o divertido questionário do Facebook.


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Eduardo Duarte @ 21:56

Qua, 09/12/09

Numa das postas dedicadas aos "bitaites ambientais", um dos Escalavardos deslindou, com uma objectividade descomplexada, oportuna e transparente, as repercussões que o actual quadro de alterações climáticas poderá vir a ter no quotidiano de todos nós, caso não queiramos ser parte activa da solução, mas sim do problema.

 

Em pleno período de discussão acerca da real vontade política em resolver o problema, com sede na Cimeira de Copenhaga, e num horizonte de alterações climáticas em que, de acordo com os cenários traçados no último relatório publicado pelo IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) se prevêem aumentos das temperaturas médias globais que podem atingir os 4.0º C, é de todo pertinente equacionar quais os impactos destas previsões para o território de Monchique. Este tema é de tal forma importante e abrangente que se compreendem não só os propósitos da posta escrita pelo Luís Costa, como os de outras, oportunamente publicadas noutros blogues bem próximos, reproduzindo-lhe o conteúdo essencial.

 

Na imagem que ilustra o bitaite ambiental surge o episódio torrencial de 26 de Outubro de 1997. A sua ocorrência marcou indelevelmente a história do concelho, sendo, certamente, um dos Fenómenos Naturais Extremos de maior importância em Portugal nas últimas décadas.

 

A imagem escolhida pelo Luís não podia ter sido mais apropriada enquanto exemplo do aumento da incidência e magnitude de processos como as devastadoras Cheias Rápidas. Não obstante, também o incremento do risco de incêndio deve ser equacionado como uma das consequências de maior proeminência no território de Monchique, de acordo com a actual conjuntura de aquecimento global.

 

Sem querer entrar em detalhes enfadonhos, é importante que se diga que o episódio de 26 de Outubro de 1997, onde se registaram 276,4 mm em menos de 6 horas, tem origem num fenómeno natural, bastante comum na circulação geral da atmosfera à nossa Latitude. São as chamadas Gotas de Ar Frio, depressões convectivas, formadas por colunas ciclónicas, normalmente em circulação de bloqueio, resultantes da advecção de ar frio polar ou ártico.

 

Estas Gotas Frias, mais frequentes nos meses correspondentes às estações de transição (Outono e Primavera) e com grande influência na repartição temporal da precipitação no Sw de Portugal, são responsáveis por chuvadas altamente concentradas no espaço e no tempo, situação que se comprovou no fatídico dia de Feira. Conheceram-se assim os efeitos catastróficos de um fenómeno bastante localizado, visto que, entre a meia noite e as 6h da manhã, em Faro não choveu, registando-se apenas 9 mm na estação meteorológica de Sagres (Rebelo, 2003). 

 

Atendendo ao aumento da temperatura à superfície dos Oceanos (o que significa maior quantidade de vapor de água nas massas de ar), previsto pelos modelos de alterações climáticas apresentados pela comunidade científica internacional, considerando ainda a típica actividade de movimentos ascendentes do ar nas Gotas Frias, será de esperar que episódios como o verificado em Outubro de 1997, possam vir a ocorrer com muito maior frequência e, sobretudo, intensidade no território correspondente à Serra de Monchique. O mesmo será dizer que se reduzirá, substancialmente, o período de retorno associado ao evento de 1997, na ordem dos 1000 anos, para valores de maior recorrência temporal. Isto é, maior probabilidade de ocorrência.

 

Concomitantemente, conhecendo-se as características geomorfológicas da Serra de Monchique, é importante não esquecer o efeito determinante do relevo na intensificação das células convectivas que originam estes fenómenos. A intervenção das vertentes com ascendência a barlavento potenciam, determinantemente, a intensidade das precipitações registadas.

 

Por último, importa ainda dizer que as precipitações devidas a Gotas Frias, são mais abundantes em anos secos e encontram-se intimamente ligadas às modificações verificadas na circulação geral da atmosfera. Num quadro em que os extremos hidrológicos (secas e cheias) fazem parte do cardápio de consequências expectáveis, a intensidade de fenómenos do género não só será maior, como serão maiores os seus impactos em termos de potencial destruidor junto de solos desprotegidos pelos efeitos da seca e de incêndios florestais, também eles mais frequentes e devastadores.

 

É, portanto, extremamente recomendável que comecemos a seguir os conselhos deixados pelo Luís, aliando-lhes medidas mitigadoras ao nível da incorporação de Riscos Naturais nos Intrumentos de Gestão Territorial. O ambiente, o clima e as nossas acções na promoção da sustentabilidade não conhecem fronteiras nem mercados, são imperativos éticos.

 

[Porque desde Quioto, e como diz a música, the «arid torpor of inaction will be our demise».]

 

Imagem de satélite da situação depressionária observada no dia 26 de Outubro de 1997, às 02h:30m. A seta a vermelho representa a passagem do evento em Monchique. Fonte: Meteo.pt




Eduardo Duarte @ 15:39

Qui, 03/12/09

«Deus criou o Mundo, os Holandeses criaram a Holanda.» O ditado popular holandês releva as animosas qualidades humanas no grande empreendimento que representou a construção dos Países Baixos, um reinado onde cerca de 27% da respectiva superfície territorial se encontra abaixo do nível do médio das águas do mar. Tudo isto graças ao efeito de pôlders e diques que permitiram a surripiada de grandes porções de terra ao Mar do Norte.

 

René Pulijm, um conhecido cozinheiro holandês, co-responsável por um famoso programa de culinária na RTL4, partiu à descoberta da supina criação divina e deu de chofre com Monchique. Uma terra empoleirada na charneca do xisto alentejano, aprumada sobre o calcário e areias estrigadas das praias do Algarve meridional, coadas nas longas caminhadas por ribeiras e barrancos.

 

Veja aqui, um vídeo cujo interesse se aguça especialmente a partir do vigésimo minuto e que passou na RTL4, no passado dia 1/12/2009. Neste filme, René descobre a razão telúrica por trás da nossa gastronomia e produtos tradicionais (enchidos, mel e medronho).

 

Deus criou o Mundo, os holandeses a Holanda e os Monchiqueiros a Serra de Monchique. Para mostrarem aos holandeses como se comunga do verde e da bicheza. Deus quer, o holandês sonha, o Monchiqueiro nasce para tornar a recriar o Mundo.

 Fotografia: Monte da Lameira, Alferce, Monchique


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Eduardo Duarte @ 21:53

Seg, 16/11/09

«Antigamente, O Largo era o centro do mundo. [...] Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à falta de notícias, era aì que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.

 

Quem lá dominasse, dominava toda a vila. Os mais inteligentes e sabedores desciam ao Largo e daí instruíam a Vila. Os valentes erguiam-se no meio do Largo e desafiavam a Vila, dobravam-na à sua vontade. Os bêbados riam-se da Vila, cambaleando, estavam-se nas tintas para todo o mundo, quem quisesse que se ralasse, queriam lá saber - cambaleavam e caíam de borco. Caíam ansiados de tristeza no pó branco do Largo. Era o lugar onde os homens se sentiam grandes em tudo o que a vida dava, quer fosse a valentia, ou a inteligência, ou a tristeza.»

 

In: O Largo, O Fogo e as Cinzas, Manuel da Fonseca.

 

Quem lê este trecho facilmente conseguirá estabelecer um paralelo e vislumbrar a importância do Largo dos Chorões na vida pública e cosmopolita de Monchique. Um Largo de História, com muitas outras histórias, das inverosímeis, para contar. Em cada uma delas, há um (ou mais) Rocambole extraordinário como protagonista. Gente duma fineza humilde, tão grande como quem nela pensa. Parecido, nos dias de hoje, ainda se encontra isto. Julgo já não ser mau.

 

 

 

Fotografia cedida por Marco Santos. Não me atrevo a fazer-lhe um enquadramento no tempo. Atiro a minha ignorância  à arena do desafio ao conhecimento dos leitores que se sintam capazes de dizer a que circunstâncias esta foto se reporta.

 

ADENDA: Graças ao leitor Armindo Jorge, a quem agradeço pela sua preciosa contribuição esclarecedora e congratulo pelos conteúdos históricos e culturais do Mons Cicus, posso agora fazer a devida contextualização da imagem que ilustra a posta. A fotografia é da autoria de António Maria de Rhodes Sérgio Callapez, antigo chefe de Secretaria na Câmara Municipal e retrata a visita do Almirante Américo Tomaz a Monchique, em Abril de 1968.

 

Este esclarecimento permite ainda reforçar a importância do Largo dos Chorões enquanto espaço público de vivência, convívio e socialização popular, indo ao encontro das palavras transcritas a Manuel da Fonseca e à descrição do Largo de Santiago do Cacém.

 

O Largo [dos Chorões] era o centro do Mundo, palanque até para salamaleques a lacaios...


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Eduardo Duarte @ 21:23

Dom, 01/11/09

O Programa Nacional para a Política do Ordenamento do Território (PNPOT) vê serem-lhe consagrados na Lei que o enquadra (Lei 54/2007 de 31 de Agosto) poderes na definição das grandes opções com relevância para o território nacional. Sendo o grande chapéu onde se devem enquadrar os restantes instrumentos de gestão territorial, de âmbito Regional (PROT), Municipal (PDM, PU, PP) e Especial (PEOT), esta figura central na política de planeamento e ordenamento territorial português tem, entre os princípios e objectivos definidos, a missão de "Garantir a coesão territorial do País atenuando as assimetrias regionais e garantindo a igualdade de oportunidades" (alínea d do artigo 27º do Dec-Lei 316/2007 de 19 de Setembro).

 

Entre tantos outros princípios, objectivos e metas definidas no sentido da equidade e coesão territorial, o artigo citado parece-me um dos que mais têm sido ignorados pelos responsáveis pela implementação das orientações estratégicas, regulação e desenho físico dos instrumentos de gestão territorial do país, da região e, como é óbvio e nas mesmas doses, no concelho de Monchique.

 

Como foi possível observar na resposta à interpelação feita pelo meu grande amigo Bruno Medronho  nesta posta, não só a redefinição da REN deverá ser feita com recurso a tecnologias de informação geográfica como a partir de um novo zonamento das condicionantes e das classes de espaços, também suportados pela ferramenta SIG, devem ser empreendidos esforços no sentido de tornar operacionalizável a famigerada igualdade oportunidades no exercício da gestão territorial. Esta igualdade de oportunidades deve estender-se ainda à igualdade de resultados, também no plano prático e com efeitos na ocupação sustentável, definida por critérios de racionalidade, dos espaços rústicos que não estejam submetidos a condicionantes biofísicas e, simultaneamente, não sejam classificados como áreas urbanizáveis.

 

Ao vincular entidades públicas e privadas às mesmas regras e princípios de utilização do espaço geográfico, o processo de planeamento define as balizas tendentes à igualdade de oportunidades. Porém, será esta premissa suficiente numa região caracterizada por fortes assimetrias intra-regionais, materializadas na famosa dicotomia geográfica Litoral vs. Serra?

 

A recente adaptação do regulamento do Plano Director Municipal (PDM)  por força do processo de revisão do PROTALgarve demonstra como são facilmente passíveis de subversão os princípios de igualdade de oportunidades sobre os quais se devem suportar os intrumentos de gestão territorial. Como se não bastasse extravasar as competências definidas pelo n.º 1 do artigo 51º do Dec-Lei 316/2007, em que os PROT devem apenas servir de referência estratégica e não limitativa na elaboração dos planos directores municipais, o PROTALgarve, ao definir como referência mínima para implantação de novas edificações em solo rural não sujeito a condicionantes, prédios com uma superfície de 5 ha, comporta uma vincada matriz discriminatória, arredada das realidades territoriais locais.

 

Considerando a referida adaptação do regulamento do PDM a este índice de ocupação (através da alínea a do nº. 3 do art. 26 do capítulo V), bem como a realidade sócio-económica e a estrutura fundiária altamente fragmentada do concelho, marcada pelo minifúndio, é fácil concluir que nem todos podem ter acesso ao mercado imobiliário, num território já de si sobremaneira condicionado.

 

A igualdade de oportunidades torna-se assim um conceito formal, um substantivo cosmético ambíguo, arruinado pela definição arbitrária de indicadores. Nesta nuvem de opacidade só os mais favorecidos terão reais hipóteses de alcançar mais oportunidades, garantindo assim partido das (poucas) mais valias urbanísticas que existem e podem vir a ser criadas no concelho.

 

É por isto que, durante a (urgente) revisão do PDM, todos nós devemos participar activamente na defesa dos nossos interesses comuns, enquanto cidadãos e enquanto monchiquenses. É fundamental que este processo se faça segundo mecanismos de negociação enraizados em indicadores de base popular, focados na qualidade de vida e na sustentabilidade de ocupação dos espaços, em detrimento de questões puramente economicistas de índole discricionária.

 

Porque, e não obstante a "lapalissada",  a nossa participação não se deve esgotar no dia em que votamos e nem tão pouco deveremos continuar satisfeitos por  esta se limitar à condição de representados nas assembleias de decisão. 

 

 



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